Do Cuscuz ao Baião de Dois: Por Que o Milho Merece Mais Respeito do Que Recebe
Photo: Everton137, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
Existe uma injustiça silenciosa acontecendo na gastronomia brasileira. Enquanto ingredientes exóticos e técnicas importadas dominam os holofotes, o milho — o grão que sustentou povos muito antes de o Brasil existir — segue sendo tratado como comida de segunda categoria em boa parte do país. Hora de rever isso.
Um grão mais antigo que o próprio Brasil
Antes dos portugueses aportarem, o milho já era base da alimentação das civilizações que habitavam estas terras. Indígenas cultivavam, torravam e moíam o milho muito antes do trigo chegar por aqui. Em outras palavras: quando falamos de culinária brasileira de raiz, o milho é o ponto de partida, não uma nota de rodapé.
A colonização tentou impor o trigo como símbolo de status — o pão fino da mesa dos senhores contra o angu e a mungunza da senzala e da roça. E ainda assim, séculos depois, quem continua alimentando o país todos os dias é o milho. Isso, sim, é resistência.
O cuscuz: café da manhã que sustenta o Nordeste
Pergunte a qualquer nordestino o que não pode faltar na cozinha de casa e a resposta vem rápido: cuscuz de milho. Vaporizado na cuscuzeira, regado com manteiga, acompanhado de ovo, queijo coalho ou leite, o cuscuz é muito mais que refeição — é ritual, é ponto de encontro, é herança.
Simples de fazer e generoso na saciedade, ele representa exatamente o que a cozinha popular faz de melhor: transformar o básico em algo completo.
Baião de dois: quando o milho encontra o feijão
Se o cuscuz governa a manhã, o baião de dois comanda o almoço. Arroz, feijão-de-corda, queijo coalho derretido e, em muitas versões, nata ou manteiga de garrafa. O prato nasceu da necessidade e virou patrimônio, provando que sabor não depende de ingrediente caro — depende de técnica, de tempo e de quem cozinha com alma.
E olhe só a lista que se segue: mungunza, pamonha, canjica, curau, milho assado na brasa, pipoca. Cada prato carrega uma história de gente que fez do pouco, muito.
O que o milho nos ensina
Talvez a maior lição do milho na cozinha brasileira seja sobre valor. A gente aprendeu a desvalorizar o que é comum, o que está sempre na mesa. Mas comida de todo dia não é comida menor — é comida que sustenta o país de verdade, do trabalhador da roça ao estudante que sai de casa com o cuscuz no estômago.
Um convite à redescoberta
Que tal dar ao milho o lugar que ele merece na sua cozinha? Prepare um cuscuz caprichado no fim de semana, arrisque um baião de dois com queijo coalho de verdade, sirva um curau cremoso de sobremesa. Cozinhe devagar, prove bastante e conte para quem estiver na mesa de onde vem aquele sabor.
Porque celebrar o milho é celebrar o Brasil real — o que se cozinha em panela comum, com ingrediente honesto e fome de verdade. E isso, em qualquer mesa, é sinônimo de bom prato.